sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Tarô

Nas cartas do tarô, se atirou o meu destino. Os passos de um louco, me levaram ao desatino. Eu não sou de beber, mas me ofereceram um trago. Senti o gosto amargo da poção de um velho mago. Cheguei a derramar um pouco na camisa. Que foi logo lavada pelas mãos de uma papisa. É claro que aquilo me deixou assim, feliz. Mas melhor ainda foi jantar com a imperatriz. Não sei mentir, dissimular, nunca fui um bom ator. Fingi me interessar pelo falar do imperador. Ele, percebendo, tentou me dar um tapa. Tive que correr e me esconder atrás do papa. Pensei, que coisa estranha, nada mais é como antes. Descendo uma escada, esbarrei em dois amantes. Pedi que perdoassem e me dessem passagem. E chegando aos portões, avistei a carruagem. Nela embarcava uma dama bem alcorça. Não deixei de reparar em como ela tinha força. Era, sem dúvidas, uma bela senhorita. E estava acompanhada por um velho eremita. Fiquei me perguntando, será que é sua aluna? E começaram a girar as quatro rodas da fortuna. Não posso negar que a dúvida geralmente me atiça. Mestre e pupila juntos, não é caso de justiça? Mas se há neles amor, seria isto pecado? Será que o velho homem seria enforcado? Será que além da curva, lhe fugiria a sorte? E ele encontraria a sua tão temida morte? Será que antes disso, lhe daria uma aliança? Ou seria mais prudente, ele agir com temperança? Se para quem tem fome, serve um prato de quiabo... Será que o velho homem enfrentaria o diabo? Ou será que confrontado ele simplesmente corre? Será que fugiria para o alto de uma torre? E lá se trancaria, e espiaria da janela... Esperando que a noite lhe trouxesse uma estrela? Uma que ele dissesse que era apenas sua. Que fosse reluzente como o cintilar da lua. Certamente ansioso, e imerso em cortisol... Esperaria paciente pela saída do sol. Se fosse como o Shrek, amigo de um jumento. Montaria em seu lombo, e esperaria o julgamento. Que seria proferido por um juiz imundo. Desses que se acham os donos desse mundo. Gostaria de contar-te, agora, antes que partas... Que tudo o que vi, quem me mostrou foram as cartas... O problema dessa história é que ela acaba assim... Como não tenho mais cartas, deixo ela sem um fim...

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Um dia meu pai me falou, mas eu não quis escutar. Muitas vezes, simplesmente, não queremos ouvir nada, nem ninguém. Até hoje não sei o que ele disse...

Seria?

Se eu soubesse que você viria, será que estaria pronto? Será que te esperaria? Será que me importaria? Ou será que fingiria não te reconhecer, e passaria ao largo dos teus passos, enquanto com os braços ainda no ar, acenarias-me com olhos de bem-querer? Seria eu capaz de tal heresia? Ou isso seria apenas loucura? Será que você me traria a cura? Será que me pioraria? Será? Seria? O que me judia é não saber se você vem...

Pianista

Penso em compor uma valsa. Mas quando pouso meus dedos nas teclas, não há música. Há apenas um mesmo som, repetido ininterruptamente. E a harmonia não é nada mais que um amontoado de palavras, que silenciosamente despertam meu ouvido interior. E eu danço no ritmo das rimas, na cadência surda das sílabas não ditas. Tudo é sonoridade para os meus olhos. Meu piano é minha máquina de escrever.