terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sem Você...

O mundo enlouquecido e sem rumo, vaga incerto
e eu certo de ser vago, enlouqueço reto
e ao saber da impossibilidade de te ter por perto
me lanço ao solo, chuto as vigas, esperando que me caia o teto...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

BATALHA MENTAL

Neste momento, uma batalha de dimensões épicas se desenrola em minha mente. Há corpos espalhados por todos os lados, há sangue e dor, há angústia. Uma densa fumaça negra encobre boa parte do espaço, o dia parece noite, e eu sigo tateando, com dificuldade, à procura de um porto seguro. Porém, não há sequer um sinal de que o cenário irá se modificar.

Sinto o cheiro de podre que emana e o odor de carne queimada. Não há lágrimas em meus olhos, mas a vontade de chorar é imensa. A sensação é de que vou sufocar. Fecho meus olhos. Desejo, desesperadamente, que tudo isso não passe de um sonho. Mas não, nada disso é sonho. Agora, começo a me curvar e a cair sobre meus joelhos. Não tenho mais força, não tenho mais vontade, não tenho mais nada.

Resolvo então olhar para o alto, em direção aos céus. Não busco um deus, nem a Deus, apenas desejo jogar minha cabeça para trás. Por entre a cortina de fumaça, bem ao longe, percebo o reluzir brilhante de algo, que não sei o que é. Mas, penso comigo mesmo, na situação em que me encontro, já é alguma coisa.

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Enquanto há vida, há esperança. No desenrolar de uma batalha sangrenta, com as roupas surradas, o escudo amassado e a espada partida, o guerreiro sente medo, ele pensa no pior, e por alguns instantes lhe passa pela cabeça que o melhor a fazer é desistir da luta. Neste momento ele olha ao redor e percebe os corpos tombados de vários aliados. Amigos, colegas, conhecidos, irmãos. E como se todos estes juntos lhe dessem um tapa no rosto, ele desperta do seu sonho, do mundo onírico para onde havia se transportado, e retorna para a luta.

Acha uma nova espada no chão, limpa o sangue misturado ao suor que escorre de sua testa, e procura o inimigo, sem medo de encará-lo nos olhos. Aquela luz que ele percebeu, ainda fraca, ao longe, hoje parece mais nítida e forte. É uma luz cintilante, branca, e emana uma doçura cativante. O guerreiro ao vê-la, tira o peso de cima dos joelhos e volta a se erguer. Essa luz, é a vida voltando a pulsar, é uma nova vontade de crescer, de ser melhor, de tentar outra vez. Agora, tudo o que vemos é a silhueta, ao longe, do guerreiro que empunha sua espada e parte, de peito aberto, para uma nova batalha.

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Após o duro combate, o guerreiro agora pode abandonar sua espada. Não precisará dela durante algum tempo. Agora é hora de se restabelecer. O campo de batalha, que agora ele visualiza, não é mais assustador. O inimigo não está mais lá. As sombras do terror se evanescem. No cume do monte onde se encontra, após relembrar toda a batalha e sabendo que aquela luz que via, antes fraca, ao longe, agora brilha intensamente. O guerreiro sorri.

Agora ele pode caminhar de mãos dadas com a alegria, com a beleza, com a doçura. Neste instante, o guerreiro só pensa em reconstruir sua vida, e em poder voltar a amar outra vez.

SEM ARREPIOS

A rua escura e a noite fria deixariam qualquer mortal de cabelos em pé, mas não ele. O ar estava seco e uma névoa cobria toda a extensão do beco. Já passava das três da manhã e nenhum ruído, além de um pinga-pinga de água, podia ser ouvido. Apenas seus próprios passos, que soavam alto a cada passada, quebravam aquela monotonia. Sua vista não podia alcançar nada que estivesse além de alguns metros de distância.

Não tinha outra opção a não ser passar o mais rápido possível por aquele lugar, que causava calafrios nos moradores da região. O beco era formado pela extensão das paredes de duas fábricas há muito abandonadas. Paredes de tijolos vermelhos, de barro, encimadas por janelões, muitos deles com seus vidros quebrados. Um lugar, de fato, aterrador, mas que não arrepiaria seus cabelos, não os dele.

Hesitou antes de tomar aquele caminho. Parou, respirou fundo, e à medida que começava a andar, aumentava a velocidade dos passos, para tentar chegar o mais breve possível do outro lado. Em determinado momento, tanto faz, se olhando para frente ou para trás, não era possível vislumbrar a saída daquele corredor macabro. Isso lhe causava certa angústia, aliás, muita angústia, mas nada que o despenteasse.

Ouviu então um barulho metálico, algum objeto que fora atirado em sua direção, ou que despencara do alto de uma daquelas janelas. Estancou paralisado. Suas pernas não mais obedeciam. Seu coração parecia querer saltar pela boca. Suava frio e apertava os olhos contorcendo-se em uma careta. Depois disso, silêncio.

Após balbuciar baixinho uma Ave Maria, descerrou os olhos lentamente e num esforço tremendo começou a controlar a sua acelerada respiração. Não sabia o que mais lhe assustava, ter outro ser humano ali, que pudesse fazer-lhe algum mal, ou não ter algum ser humano ali que pudesse lhe fazer algum mal. Quer dizer, e se fosse assombração? Tentando ser racional, ensaiou alguns passos adiante, lentamente, na tentativa de recuperar o ritmo das passadas e sair dali o mais depressa possível.

Quando já podia vislumbrar ao longe a saída daquele maldito lugar teve a impressão de estar sendo observado. Estancou uma vez mais. Lentamente virou a cabeça por sobre os ombros para se certificar de que estava sozinho. De repente percebeu uma forma, um tanto o quanto disforme, que se aproximava com certa velocidade pela direita.

Não teve dúvidas. Arrancou sua peruca com velocidade espantosa e arremessou-a em direção ao vulto, com tamanha força, que quase dera um mau jeito nas costas. Ouviu-se, em seguida, um miado ensurdecedor, que o fez tremer nas bases. Assustou-se mais do que já estava e, sentindo seu estômago revirar, disparou gritando pelos metros finais do beco, como uma gralha que levara um tiro de espingarda de chumbo.

Afinal, ele era careca, o que não o impedia de ser um cagão de marca maior, de forma alguma.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Impressionante Exposição

Ela só lembra que estava em um museu, na Holanda, encantada com as pinceladas impressionistas das obras de Vincent Van Gogh. Eram realmente impressionantes, com perdão do trocadilho. Queria ver mais de perto os golpes do pincel na tela e, ao se aproximar mais um pouco do quadro Cafe Terrace at Night, tudo, de repente, ficou escuro e inaudível.

Quando se recuperou já não estava mais no interior do museu. Também não tinha a menor idéia de onde estava. Era uma rua de calçamento irregular, feito de paralelepípedos, onde ela via passar algumas pessoas falando numa língua diferente da que estava acostumada nos Países Baixos, porém, não desconhecida para ela, o francês.

Pôs-se a pensar o porquê de em Otterlo, típica cidade holandesa, tantas pessoas estarem falando outra língua que não o neerlandês. Outra coisa a intrigava. Estaria havendo algum evento de moda ou festa à fantasia na cidade? Somente ela, em meio a um número considerável de pessoas, vestia jeans e camiseta. Por que as senhoras que passavam por ela trajavam vestidos bufantes e os homens traziam chapéus cobrindo as cabeças e se apoiavam em bengalas? Definitivamente, nada estava fazendo muito sentido naquele instante.

Vendo um bar aberto bem próximo do local onde se encontrava, ainda atônita, resolveu entrar e pedir para usar o banheiro, precisava jogar uma água no rosto. Dirigiu-se ao senhor que estava atrás do balcão e em alto e sonoro holandês disse:

Goedenavond! Waar is het toilet?[1]

Sem entender direito o que a moça desejava, o homem respondeu:

Pardon, Je ne comprends pas! Parlez-vous français?[2]

Não quis mais saber de banheiro, virou-se em direção à porta e correu, como se fugisse de uma assombração.

Au revoir![3] – ainda pôde ouvir o homem do bar gritar.

Não era possível! Como chegara até a França tão rápido se a sensação que tinha era de que, há apenas alguns minutos, estava em um museu holandês? Somente quando chegou à calçada é que se deu conta de que já era noite. Aliás, já era noite alta, passava das vinte e duas. Uma noite estrelada e linda.

Aflita, olhou novamente ao seu redor, forçando a cabeça para tentar lembrar como fora parar naquele lugar. Viu uma carruagem que se aproximava pela esquerda e alguns transeuntes empertigados. Vislumbrou então, não muito distante, uma tela e um cavalete e, por baixo destes, pôde divisar um par de pernas metidas em calças surradas e, pelo alto, o que parecia ser o cume de um chapéu de palha, meio esgarçado pelo tempo. Sem saber bem o porquê, como que hipnotizada, começou a caminhar naquela direção.

Lentamente, pisando macio e tomando cuidado para não tropeçar nem atrapalhar o artista, ela foi se aproximando, até parar a uns dois metros dele. Ignorando a presença da mulher, aquele homem ruivo, com a barba por fazer e cachimbo apagado no canto da boca só levantava a cabeça por alguns instantes, para logo depois, em movimentos curtos e rápidos, desferir golpes com seu pincel sobre a tela.

Ela não podia acreditar no que estava presenciando. Aquela cena era completamente irreal. Aquele homem, que ela muito admirava pela emoção de suas obras, há muito havia terminado com a própria vida. Dera dois tiros no peito em um campo de trigo que retratou em sua última pintura.

“Não, esse deve ser um sósia, e tudo isto deve fazer parte da exposição. Devo ter

perdido a consciência por alguns instantes e agora estou em uma ala externa do museu, onde

se realizam espetáculos que remontam a época da vida de Vincent”. – pensava ela.

– Boa noite, senhorita – disse o homem, em francês, sem mesmo desviar o olhar da pintura.

– Boa noite – respondeu a mulher, também utilizando a língua francesa.

Fez-se então um longo silêncio que agora foi quebrado por ela:

– Você pinta muito bem, qualquer um que visse este quadro diria que foi pintado pelo próprio Van Gogh.

Desviando o olhar, pela primeira vez desde o momento em que começara a pintar, fitou-a nos olhos e, espantando, perguntou:

– Não compreendo o que queres dizer. Como este quadro não se pareceria com uma pintura de Van Gogh se o próprio Vincent Van Gogh é quem está aqui a pintá-lo?

– Oh, o senhor é muito espirituoso, desculpe por minha falta de sensibilidade, é que ainda não entrei no clima desta representação. Aliás, é sensacional esta idéia de um teatro que imita os tempos de Van Gogh!

– Teatro? Representação? Mas do que é que você está falando? A propósito, de onde a senhorita conhece minhas pinturas? – indagou curioso.

– Como não reconheceria a obra do maior pintor impressionista de todos os tempos?

– Nossa! Ninguém nunca falou isso sobre meus quadros, a senhorita acha-os realmente bons?

– Bons, está brincando? Van Gogh foi o maior pintor de todos os tempos! – falou a mulher de maneira efusiva.

– Mas senhora, por que “foi” e não “é”, o melhor artista de todos os tempos? Afinal, ainda estou vivo!

Aos risos ela respondeu:

– Ah, o senhor é realmente muito espirituoso, mas não precisa mais fazer o papel de Vincent. Pode conversar naturalmente. Vamos, me diga, qual o seu verdadeiro nome?

– Vincent Van Gogh. – afirmou categórico.

– Ora, vamos lá, deixe disso. Sei que é um bom ator, mas agora quero conversar com você, não com o seu personagem!

– Notei quando a senhorita saiu do Café. Acho que não deveria ter tomado tanto absinto, está delirando!

– Absinto? Mesmo que quisesse não poderia tomar absinto, a bebida está proibida de ser comercializada desde 1915.

– Senhorita, acho melhor ir para sua casa, já não está mais falando coisa com coisa. Como a bebida poderia ser proibida em 1915 se ainda estamos em 1888?

– 1988, o senhor quis dizer...

– Senhora, o que digo é para seu próprio bem, volte para casa, a senhora parece estar precisando descansar. – falou o homem preocupado.

– Bom senhor, realmente agora a pouco, quando estava em uma das salas aqui do museu me senti um pouco estranha. Não consigo lembrar direito como cheguei até aqui. A última imagem de que me recordo é deste quadro, justamente, que o senhor está retratando, pendurado lá na parede. Depois tudo ficou escuro...

– Mas de que museu a senhorita está falando?

– Oras, e de qual mais seria? Do Kröller-Müller Museum[4], aqui de Otterlo!

Senhorita, por favor, pare com essa loucura! Estamos em Arles, na França, há vários quilômetros da Holanda! E ao que me consta, não há nem nuca houve nenhuma tela minha exposta naquela cidade, nem em nenhuma outra e também nunca ouvi falar antes deste museu! – respondeu o homem demonstrando certa impaciência.

– Não sei se há ou não alguma tela sua exposta em qualquer lugar que seja, estou falando de Van Gogh, Vincent Van Gogh, e não de um reles imitador dele!

– Ah, então é isso, você é somente mais uma dessas pessoas que cismaram de me atazanar, não é mesmo? Por que não me deixam trabalhar em paz? Por que minha presença nesta cidade incomoda tanto a todos? – gritou ele.

– O senhor não quer mesmo que eu acredite que estou diante do gênio Vincent, está? – indagou ela.

– Em nenhum momento disse que era um gênio! Mas, sim, eu sou Vincent Van Gogh!

– Se é mesmo Vincent, deixe-me ver sua orelha direita!

– O que é que minha orelha tem a ver com isso?

– Anda, deixa-me ver se falta um pedaço dela! – insistia a mulher.

– Minha orelha está aqui, inteirinha, por que eu haveria de tê-la aos pedaços? – disse mostrando a orelha.

– Ora, porque se você fosse realmente Van Gogh teria ela cortada!

– Louca! Insana! Saia já daqui e me deixe em paz! – o homem dizia aos berros.

– Ei, eu vou até a direção do museu para denunciá-lo! Como é que você pode ficar assim gritando com os visitantes? Por mais talentoso que possa ser fazendo o papel de Van Gogh, isso não lhe dá o direito de agir desta maneira, afinal você é apenas um sósia!

– Diabos mulher, eu já falei que não tenho nenhuma obra minha exposta em museu algum, nem na Holanda, nem na Itália, nem na Suíça e nem aqui na França! Mando todas as minhas pinturas para meu irmão Theo, e ele as guarda para mim!

– Vejo que conhece bem a história dele, mas eu também já li todos os livros sobre sua vida e sei muito bem que ele cortou a orelha esquerda em dezembro de 1888, há quase cem anos!

– Livros sobre minha vida, só pode ser uma brincadeira! Bem, se você diz que Vincent Van Gogh cortou a própria orelha em dezembro de 1888, pode ser que esteja com a razão. Mas, para saber disso, teremos de esperar até lá, afinal estamos em setembro. – Disse o homem com ar zombeteiro.

– Tudo certo meu amigo, mas isso foi em 1888, cem anos atrás!

– Cem anos atrás, foi isso mesmo o que a senhora disse? Por acaso a senhora quer mesmo me convencer de que estamos, de fato, no ano de 1988? É, acho que a bebedeira não te fez bem! Tudo bem, por que não faz o seguinte? – indagou o homem – pergunte as pessoas que estão sentadas ali na varanda do café em que ano estamos!

– Ah, mas é claro – redargüiu ela – como se todos eles não estivessem mancomunados com todo este teatro.

– Ora, estamos no meio da rua, não há nem nunca houve teatro por aqui! Vamos, dê uma volta, pergunte a quem quiser, depois, se eu ainda estiver por aqui, venha falar comigo novamente.

– Hahaha – ria a mulher – está bem senhor, irei me certificar de que realmente estamos em 1888, e depois volto aqui! Olha, foi um grande prazer conhecê-lo, apesar de toda esta confusão! Hahahaha... – continuava a rir enquanto se afastava do homem, que sacudia a cabeça negativamente, enquanto a via partir.

Algum tempo depois, o homem começou a arrumar suas coisas para ir embora, havia terminado a obra. Nem sinal daquela mulher que há pouco o havia deixado quase louco, com toda aquela conversa de museus, exposições e sobre a fama mundial de Vincent Van Gogh. “Quem dera o que aquela mulher disse fosse verdade”, pensou enquanto se afastava dali, com o cavalete e a tela embaixo do braço.

Enquanto isto, a mulher que acreditava estar nas dependências do museu começava a se dar conta de que, realmente, não havia museu algum por ali. Todos, sem exceção, por quem passara, estavam falando francês e vestindo trajes de época. Começou a ficar com medo. O que estaria acontecendo? Estaria ela sonhando? Beliscara-se. Doera. Não sonhava. Segurou pelo braço um jovem rapaz que passava a seu lado e perguntou:

– Me diga, por favor, que dia é hoje?

– 23 de setembro! – respondeu ele.

– E em que ano estamos?

– Ora essa, em 1888!

Tornou a desesperar-se e mais uma vez saiu em disparada. Refez o caminho de volta, na esperança de reencontrar o homem que pintava no meio da rua. Fora tudo em vão. Chegando lá, não havia mais sinal do pintor que, de fato, era Vincent Van Gogh. Porém, por mais absurdo que isso possa parecer, ela também não estava errada, vivia no ano de 1988. Estava sim, dentro daquele museu. Mais precisamente, dentro do quadro. Verdade, aqueles com um olhar mais atento, ao se aproximarem bem da pintura, poderão vê-la, parecendo perdida, à procura do seu criador.



[1] Em holandês: - Boa noite! Onde fica o banheiro?

[2] Em francês: - Desculpe, eu não compreendo! Você fala francês?

[3] Em francês: Até logo!

[4] Museu holandês que possui uma rica coleção de quadros de Vincent Van Gogh, em exposição permanente.